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domingo, 27 de abril de 2014
San Juan del Sur, uma vila surfista na Nicarágua
O sol já ameaçava dar lugar à lua quando cheguei a San Juan del Sur. Tinha saído do lago atitlan há exatamente 36 h. Atravessei as montanhas da Guatemala, jantei na a fronteira em El Salvador e esperei 5h na das Honduras. Não pensem que foi uma viagem monótona. Foi uma aventura com mais adrenalina do que o trekking que tinha feito uma semana antes. Quis viajar em chicken bus porque as alternativas, todas de luxo, obrigavam-me a pernoitar em San Salvador ou em San Pedro del Sur, duas cidades com taxas tão elevadas de homicídios que me deram vontade de fugir para bem longe! Percorri quase toda a Nicarágua para finalmente chegar a esta antiga aldeia de pescadores na costa sul do pacífico.
Quando saí do lago Atitlan não imaginava o que me esperava nesse dia. Numa luta contra o tempo em que pus o condutor de uma mini van a fazer manobras que levariam, sem dúvida, à proibição definitiva de conduzir, consegui finalmente chegar à estação de chicken bus da capital. Conhecem aqueles cartoons de autocarros amarelos que ficam com o dobro da altura devido à pilha de malas que carregam na parte superior? Esse era o meu, mas não levava só malas. Frigoríficos, móveis, cestas de legumes e cadeiras de cabeleireiro, eram só alguns dos objetos impensáveis que atravessaram fronteiras connosco. Quando entrei no autocarro, outro choque! Já estava preparada para os bancos escolares desconfortáveis sem local para colocar as pernas ou a cabeça. Não estava era à espera que estivesse apinhado de pessoas e coisas, com sacos plásticos de comida pendurados sobre as nossas cabeças. Agora imaginem que chegam ao único lugar vago e quem lá vai sentado é uma Nicaraguense da minha idade, tagarela, com um huski bebé no colo que levava para os dois filhos. O huski da minha amiga não era o único que viajava connosco, havia pelo menos mais dois amiguinhos de quatro patas e a julgar pelos sons estranhos que não percebi de onde saíam haveria também galinhas!
Eu e quatro argentinos éramos os únicos turistas. No entanto, terra de gentes calorosas, os locais acolheram-me imediatamente como se fosse um deles! Revoltaram-se sempre que alguém tentou ganhar mais um pouco pelo fato de ser nitidamente turista, ajudaram-me a conseguir bons negócios no câmbio de moeda e aconselharam-me as melhores comidas. Em 36 horas fiz vários amigos, contrabandeei o huski pela fronteira da Nicarágua, escondida dos guardas por um hondurenho, fui a uma casa de banho com dois porcos enormes a olhar para mim e mudei 5 vezes de autocarro. O balanço da viagem? Muito cansativa, mas muito gratificante pelo fato poder ver em primeira mão uma realidade tão diferente da nossa.
Paraíso de surfistas, San Juan, transformou-se gradualmente de vila piscatória num ponto de paragem obrigatório para backpakers que viajam para Nicarágua. Já há umas centenas de anos que os habitantes locais estão habituados à presença de europeus e americanos. O pequeno Porto foi construído pelos colonizadores espanhóis para proteger os seus navios mercantes e mais tarde foi usado pelos americanos, que transportavam pedras preciosas e tripulantes de Nova Iorque para São Francisco. A vila é pitoresca e ainda não está descaracterizada pelo turismo, principalmente porque a Nicarágua foi palco de uma guerra guerra civil sangrenta e sofreu com uma grande instabilidade política e económica até há bem pouco tempo.
A costa do pacífico é possuidora de quilómetros incontáveis de extensos areais. O mar agitado, muito diferente da costa caribenha, é ideal para os amantes do surf. Só não tem mais adeptos porque a vizinha Costa Rica rouba-lhe todas as atenções. Contudo, quem vai a San Juan, velhos ou novos experimentam o desporto. Existem inúmeras escolas, a preços reduzidos que apelam ao instinto aventureiro de cada um. Cansada da minha viagem, com o meu instinto aventureiro no limite optei por visitar as praias mais bonitas e usufruir delas para demorados banho de sol. É possível fazer praia na enorme praia da vila, mas está cheia de barcos ancorados e a beleza das praias selvagens é incomparávelmente maior.
Para chegar às praias temos que comprar bilhete num dos camiões de caixa aberta que fazem o transporte. Agarrem-se bem, o caminho tem buracos enormes, todo em terra batida pelo meio de campos verdes com palmeiras e vacas monstruosas, maiores que os touros que vemos em Montalegre. As praias selvagens são imensas, e nomes como Maderas, Marsella, Majagual e La Flor, esta última ponto de observação de tartarugas valem a pena a visita. Para o país mais pobre da América Central fiquei impressionada com as vivendas de luxo que vi ao longo da costa. Parece-me que a riqueza neste país está muito mal distribuída, se tivermos em conta como vive a maioria da população.
San Juan tem um ambiente muito relaxado, com festas em bares junto à praias, muitas happy hours vantajosas e muitos mesmo muitos surfistas. Vêm um pouco de todo o mundo, mas os australianos estão aqui em força. Se se hospedarem no hostel Casa de Olas, que aconselho vivamente, 99% dos hóspedes partilham da nacionalidade dos donos, a Carla e o Fred, um casal australiano reformado na casa dos 70. O Fred é sensacional, faz-nos sentir como se estivéssemos em casa. Podem-se fazer refeições no hostel, há um prato único por dia, e sentamo-nos todos juntos em volta do bar e à noite vêem-se filmes australianos na grande tela que o Fred coloca junto à piscina. O único inconveniente do hostel, mas também a maior qualidade é que se situa no topo de uma colina, a 3km do centro. A vista é incrível e o pôr do sol memorável, um espetáculo que se pode observar da piscina ou numa das várias cadeiras baloiço. Existe transporte gratuito para o centro de hora a hora.
Dicas:
Onde comer - O Bairro café tem uns hamburgers muito bons e é em frente a este restaurante que é o ponto de encontro de muitos transportes, quer para as praias quer para os hostels no topo da colina. No Simon says smothie bar podem provar smothies excelentes e também serve refeições. Não me recordo do nome do restaurante onde provei comida local, mas lembro-me que era perto do mercado e tinha frango a grelhar na rua. A refeição foi excelente.
P.s. A qualidade das fotos deixa a desejar uma vez que parti a minha máquina fotográfica no lago Atitlan. As poucas que tenho estão aqui e foram tiradas com o meu tablet.
domingo, 20 de abril de 2014
Lago Atitlan, um espelho de vulcões
"Lake Como, it seems to me, touches on the limit of permissibly
picturesque, but Atitlán is Como with additional embellishments of several
immense volcanoes. It really is too much of a good thing." by Aldous Huxley
Não posso comentar a primeira parte da citação
do famoso escritor britânico, uma vez que nunca estive no lago Como, mas posso
atestar que o lago Atitlán tem uma beleza singular. Não sei se será, como é
apelidado por muitos, o “lago mais bonito do mundo”, mas tem com certeza,
características únicas. Como o facto de estar rodeado por pitorescas vilas
maias, tendo a maioria o nome dos apóstolos bíblicos. Ou os três vulcões que se
espelham imponentemente numa imagem perfeita, formando um contorno
impressionante do lago.
A duas horas de distância da capital, Guatemala
City, o lago oferece dias de lazer tranquilos, banhos de sol, trekking a
vulcões, bem como exploração de uma cultura que, apesar do turismo crescente,
está ainda profundamente enraizada nas coloridas aldeias maias. Foi o local que
escolhi para recuperar do meu primeiro “burnout” em viagem. E o que é isso,
perguntam vocês? Algo que nunca antes tinha sentido a viajar, nem nunca pensei
sentir, mas afinal ele é real, ele existe. Um “burnout” significa, literalmente,
esgotamento, apesar de eu achar que em português a palavra parece ter uma
conotação bastante mais forte do que em inglês. Viajar por muito tempo, e
principalmente viajar rápido, pode ser extenuante, quer física, quer
psicologicamente. Apesar de descrente que isso me fosse acontecer li sobre o
assunto antes de ir viajar, e ainda bem que o fiz, porque o meu trekking foi o
desencadeador deste “burnout.
Tinha planeado ficar 2 dias no lago, e seguir
rumo às Honduras, onde queria tirar o meu curso de mergulho na paradisíaca ilha
de Utila. Mas o meu cansaço, aliado ao apelo relaxante da paisagem do lago
fizeram-me ficar por uma semana. E talvez tivesse ficado mais, se não fosse
pelos meus pais que me esperavam na Nicarágua.
As vilas maias são inúmeras e cada uma delas
tem características próprias. Eu estive em 4: Panajachel, San Pedro la Laguna,
San Marcos e San Juan la Laguna, que não poderiam ser mais diferentes.
San Juan la Laguna, um povo autêntico
Se ainda se lembram, terminei o trekking em San
Juan, uma vila quase intocada pelo turismo, em que o quotidiano das pessoas
locais é a principal atração. Este pequeno “pueblito” aloja indígenas
particularmente aderentes às crenças e tradições dos seus antepassados, daí que
a agricultura e as cooperativas de tecelagem sejam as principais fontes de
rendimento da população. É ainda a vila menos visitada do lago, provavelmente
também a mais pobre, e onde encontramos um retrato fiável da Guatemala.
Guardo San Pedro carinhosamente no meu coração.
Foi aqui que me alojei durante uma semana e foi esta a vila que mais explorei.
San Pedro é vibrante, cheio de vida, numa mistura harmoniosa de jovens
estrangeiros e pessoas locais que co-habitam pacificamente e me fascinaram.
Uma parte da aldeia é turística, com vários hostels, alguns restaurantes, cafés e um ou dois bares, agências de turismo e escolas de espanhol, uma vez que, depois de Antígua este é o local preferido pelos estrangeiros para aprender a língua. Mas, percorremos algumas ruas estreitas e estamos no meio de mercados de frutas e legumes, de bancas de comidas, entre senhoras que vendem tamales envoltos em folha de bananeira e um pão de banana divinal em grandes cestas de verga.
Uma parte da aldeia é turística, com vários hostels, alguns restaurantes, cafés e um ou dois bares, agências de turismo e escolas de espanhol, uma vez que, depois de Antígua este é o local preferido pelos estrangeiros para aprender a língua. Mas, percorremos algumas ruas estreitas e estamos no meio de mercados de frutas e legumes, de bancas de comidas, entre senhoras que vendem tamales envoltos em folha de bananeira e um pão de banana divinal em grandes cestas de verga.
Entalada entre a vila de San Juan e o Vulcão
San Pedro, a aldeia tem vistas maravilhosas sobre o lago e a montanha. Tem um
porto pitoresco com restaurantes a cair sobre o lago, e habitantes sorridentes.
A maior parte do turismo no lago Atitlán foca-se
em Panajachel, sendo San Pedro famoso por atrair turismo mais jovem, principalmente
de mochila às costas, conferindo-lhe um ambiente mais relaxado e animado.
Há divertimento noturno, havendo diariamente pelo menos um bar aberto onde se encontram praticamente todos os viajantes e durante o dia a aldeia serve como base para explorar as vilas vizinhas. De barco, de tuk tuk, a cavalo ou a pé, apesar desta última não ser muito aconselhada devido à falta de segurança, é possível visitar as imediações. Recomendo o passeio a cavalo até ao sopé do vulcão San Pedro que é extremamente bonito e barato também (cerca de 2,5€ por hora).
Há divertimento noturno, havendo diariamente pelo menos um bar aberto onde se encontram praticamente todos os viajantes e durante o dia a aldeia serve como base para explorar as vilas vizinhas. De barco, de tuk tuk, a cavalo ou a pé, apesar desta última não ser muito aconselhada devido à falta de segurança, é possível visitar as imediações. Recomendo o passeio a cavalo até ao sopé do vulcão San Pedro que é extremamente bonito e barato também (cerca de 2,5€ por hora).
A comida é a melhor que provei no país, se
considerarmos o fator qualidade-preço. Há a comida típica que encontramos nos
vendedores ambulantes e comida internacional de excelente qualidade em vários
restaurantes. Esperem pagar entre 2 a 5€ por refeição e comer divinalmente.
Existem diversas opções de alojamento, e ouvi
opiniões muito favoráveis de vários locais. Aconselho vivamente o hostel Zoola,
é um dos melhores hostel onde já fiquei. O dono é israelita, pouco mais velho
do que eu, com uma história de sucesso, de quem pouco tinha e neste momento é
dono de dois fantásticos hostels na Guatemala, com projetos para abrir um novo
em Amesterdão. A comida é fabulosa, criada pelo Zoola e típica de Israel e
servida em mesas baixas, onde comemos sentados em almofadas coloridas ou
deitados. Experimentem o “israeli combo”, uma combinação de pratos típicos, e o
“hello to the queen”, uma sobremesa perfeita de banana e chocolate. Tem um bar
que dá diversas festas por mês e concertos ao vivo e uma piscina com vista
perfeita do lago.
Neste local aconteceu-me algo caricato. O Zoola queria
algumas fotos do hostel para publicidade e perguntou-me se poderia fazê-las.
Uma vez que a Maria é fotógrafa e eu já trabalhei como manequim, aceitamos a
proposta. Em troca tivemos um desconto de 50% no alojamento e refeições
gratuitas durante a nossa semana de estadia, o que nos deixou no paraíso, pois
o restaurante do hostel era, na minha opinião, o melhor de San Pedro.
Panajachel, compras e souvenirs
É a maior vila do lago, com melhores
infraestruturas turísticas, mas também, na minha opinião, demasiado alterada por
este. Aconselho uma visita de meio dia para percorrer a enorme feira de
artesanato, couros e roupas. É o local ideal para fazer compras e levar
lembranças do lago. A maior parte da feira é só isso mesmo, uma feira, mas
escondidas entre as tendas existem algumas lojas com coisas fantásticas, como
uma loja de couros que entrei, a Puro Utz
Pin Pin, cheia de carteiras e sapatos lindos e originais e de onde a Maria
teve de me arrastar, porque estava muito além das minhas possibilidades
financeiras.
San Marcos, ioga e meditação
À medida que nos aproximamos de barco de San
Marcos, começamos a ser invadidos por um sentimento de plenitude. Talvez isso
se deva à energia positiva do local, que parece ser a principal atração de San
Marcos. As casinhas originais construídas em estacas dentro da água embelezam a
pequena vila e ao chegar ao porto deparamo-nos logo com hippies de cabelos
compridos e calças largas à espera do próximo barco. A aldeia mais zen do lago
oferece diversos refúgios para meditar e aulas de ioga, embrenhados na
vegetação, e um parque natural onde se pode nadar no lago e fazer caminhadas na
natureza.
Dicas:
-Alojamento:
Hostel Zoola - quarto duplo por cerca de 10€(100Q); dormitório 4€(40Q)
-Restaurantes:
The Clover, El Colibri
-Transporte:
o barco de San Pedro para Panajachel custa cerca de 2€(20Q) ida e para San
Marcos cerca de 1€(10Q)
segunda-feira, 31 de março de 2014
O diário do meu primeiro Trekking (Dia 3)
13/10/2013
3h da manhã. Já? Fechei os olhos por 2 segundos e quando voltei a abri-los já tinha que acordar. Obviamente que não foi o que aconteceu, mas o meu corpo estava a ressentir-se e a pedir mais horas de sono. Com um olho aberto e outro fechado lá me fui arrastando, a arrumar as minhas coisas vagarosamente e fui a última a pôr os pés a caminho.
A subida foi feita numa estrada de asfalto, sem um único carro e tão negra como o céu. A diferença era que o céu estava salpicado de milhares de estrelas. Impressionava. A última vez que vi um céu tão bonito foi numa ilha no Brasil, chamada Morro de São Paulo, há 10 anos atrás. Tive vontade de me deitar na estrada, contemplar o céu até amanhecer e absorver ao máximo a plenitude daquela imagem. E se estivesse sozinha, era o que teria feito. Mas o objetivo era outro: observar o amanhecer de um mirador sobre o lago Atitlán, a atração natural mais visitada da Guatemala.
Éramos iluminados apenas pelas lanternas dos guias ou de pessoas mais precavidas do que eu. Amarrei-me imediatamente à Maria e à sua lanterna e continuei o caminho. No topo, antes de embrenharmos novamente por trilhas encontramo-nos com a nossa escolta policial. Um segurança muito simpático, mas que evidentemente não compreendia o motivo pelo qual tantos jovens acordavam tão cedo e andavam tantos quilómetros pelo meio da selva e ainda pagavam por isso. Já tínhamos sido informados que esta era a parte menos segura do nosso trekking, daí a escolta ser necessária.
Em conversa com os guias fui advertida em ter cuidado nas trilhas entre as aldeias que rodeiam o lago, por ser uma zona mais turística, também torna os turistas alvos fáceis de pessoas menos bem intencionados.
Seguimos por entre campos de milho, desta vez bem mais assustadores do que os do dia anterior e chegamos a uma clareira com uma vista panorâmica, a 500m de altura, sobre o lago.
Enrolamo-nos nos nossos sacos cama e deitamo-nos na erva fofa mas húmida à espera que o sol acordasse. Os guias preparavam o pequeno almoço com aveia, manteiga de amendoim, e frutos secos e ferviam leite, café ou chá, para aquecer a alma enquanto o sol não o fazia.
A tonalidade do céu foi-se tornando mais clara, num espectro de azuis arroxeados, até que o sol começou a espreitar timidamente atrás dos vulcões que se erguem sobre o lago. O espetáculo foi magnífico e valeu todo o esforço e suor despendido para ali chegar. Prometi a mim mesma valorizar mais estes fenómenos que a natureza nos oferece gratuitamente e sem pedir nada em troca e que tantas vezes não tem espectadores.
Custou-se sair do meu saco cama, mas ainda me custou mais despedir-me deste maravilhoso amanhecer. Continuamos a caminhada final de 3h através da popular trilha “nariz de índio”, que delineia uma montanha recortada com semelhanças assombrosas com a face de um indígena maia em repouso. A trilha é quase sempre a descer com ocasionais miradores sobre o lago e suas povoações, uma imagem que mais parece um postal, principalmente porque abundam flores de várias cores que crescem selvagens e embelezam as fotografias.
Uma vez que baixamos de altitude e já não temos a frescura das florestas nublosas para nos proteger, a temperatura aquece gradualmente, e o sol em vez de morno já queima a pele e obriga a paragens mais frequentes.
A penúltima paragem antes de chegarmos ao destino final é uma cooperativa local de café, a La Voz Que Clama del Desierto, onde explicam o processamento do café e o experimentamos, seja na forma do italiano expresso, ou americano, latte ou cappuccino.
11h da manhã. Chegamos ao nosso destino: San Juan La Laguna, uma das povoações que crescem nas margens do lago. San Juan é tradicional, é pobre e pouco turístico, ao contrário das irmãs San Pedro ou San Marcos, mas também é provavelmente a vila mais autêntica.
Almoçamos num comedor no centro da aldeia, que pertence a uma cooperativa de tecelagem de mulheres, a Ixoq Ajkeem. Despedidas, beijos e abraços e promessas de trocas de emails eu e a Maria separamo-nos do resto do grupo e seguimos de tuk tuk para San Pedro, o nosso ponto de partida para explorar o lago nos dias seguintes.
Dicas:
-A Quetzaltrekkers fornece estes pacotes por 650Q, que correspondem a aproximadamente 60€. Estão incluídos os guias, o alojamento, 8 refeições, a entrada no temascal, snacks, água, para além de disporem de equipamento, como sapatilhas extra, sacos-cama e colchões que alugam gratuitamente a quem precisar. Este trekking especifica de Xela ao lago Atitlán ocorre duas vezes por semana, aos sábados e terças-feiras. Mas existem muitos outros que podem pesquisar neste link http://www.quetzaltrekkers.com/.
-É importante levar protetor solar e repelente, assim como alguns Quetzals para comprar gelados e café. As lanternas também me fizeram falta, por isso aconselho a que se lembrem delas
domingo, 30 de março de 2014
O diário do meu primeiro Trekking (Dia 2)
12/10/2013
5.00h da manhã. “Maria estás acordada? Preciso de ajuda para me levantar!”. Acordei desorientada, mas o fato de todos os meus músculos latejarem ao menor movimento, trouxe-me de volta à realidade. Não consegui descobrir um centímetro do meu corpo que não me doesse. Colocar a mochila às costas quase me derrubou tal era a dor que tinha nas ancas. Sim, hematomas roxinhos e bem dolorosos. Com bastante dificuldade arrumei as minhas coisas e saí para a pequena praça quase deserta no dia anterior.
Deveria ser dia de mercado porque havia uma concentração anormal de pessoas à volta de quatro bancas. Não me demorei porque estava esfomeada, a precisar de um pequeno-almoço nutritivo para superar outros tantos quilómetros que me esperavam nesse dia. Estava a pensar nisso enquanto me dirigia ao comedouro, termo que designa uma casa local que serve refeições. Não me posso queixar porque o meu pedido foi acedido, mas nunca pensei comer ovos, arroz, feijão preto e tortilhas àquela hora da manhã.
Deixamos a aldeia de Ixtahuacan pouco depois de terminarmos o pequeno-almoço e continuamos a nossa descida pelo vale de Nahua.
Por duas ou três vezes, vislumbramos pequenas casas isoladas, não o suficiente para formar uma aldeia e praticamente inacessíveis no meio de montanhas cultivadas com enormes espigas de milho.
Uma parte do percurso interrompia estes campos e senti-me como as crianças do filme “Querida, encolhi os miúdos”. Espigas de milho com mais de três metros de altura e pedaços de céu azul foram o meu cenário durante uma parte do trilho. Os guias atribuem a altura anormal dos pés de milho a uma técnica maia bastante antiga usada pelos locais (se funciona ou não, não sei, mas gostaria de a experimentar na minha horta) com base na suposta simbiose que ocorre quando se planta junto a este um pé de feijão.
Atingimos a base do vale e descansamos na margem de um rio enquanto nos mentalizávamos para a próxima etapa do nosso trekking. Olhava para a outra margem onde se encontrava a “Record Hill”, a primeira subida deste dia e provavelmente a mais difícil de todo o percurso.
Como o nome indica, os mais corajosos tentam bater o record atual de 9 minutos e 3 segundos. Não tentei cronometrar o meu tempo, fui com calma a apreciar a vista, mas várias pessoas fizeram-no. Como seria de esperar, ninguém conseguiu batê-lo.
Quando cheguei ao topo da colina desejei ter uns pulmões suplentes para o resto do dia. Apesar de ofegante e dorida, consegui apreciar a recompensa. Uma vista que nos faz prolongar o olhar sobre um vale tao verde, apenas pontuado com pequenas casas, um descanso de 20 minutos e a promessa de um gelado um pouco mais à frente deram-me energia para continuar.
Rapidamente chegamos a Xecabol, uma pequena povoação com muitas crianças que gritam, riem e apontam para as pessoas estranhas que carregam mochilas enormes e duas vezes por semana passam por eles.
O dia a dia dos seus habitantes é algo que temos o privilégio de ver de perto. Mulheres que lavam os cabelos em bacias de água fria junto à estrada, crianças que brincam nas traseiras das casas e homens que trabalham o campo fazem parte da imagem da aldeia.
A única mercearia, para além de refrescos e snacks, também vende gelados por poucos cêntimos, e são os únicos extras não incluídos no trekking. Com menos de 1€ comi dois dos mais caros e maiores.
Atravessamos a aldeia e fizemos um piquenique um pouco mais adiante, antes de penetrarmos pela última vez na floresta, numa íngreme e complicada descida até ao rio Payatza. Esta foi, para mim, a fase mais difícil. Com os músculos a fraquejar, por diversas vezes senti os meus joelhos a ceder ao peso que transportavam, adicionada a força que é necessária para travar o corpo para não irmos simplesmente a rolar até ao rio.
Ladeando as montanhas, para além da vista magnífica da floresta também vemos campos cultivados e simétricos a perder de vista e palmeiras com as folhas mais longas que alguma vez vi.
Chegados ao rio estava na altura de calçarmos o segundo par de sapatilhas porque nas horas seguintes iriamos atravessar a pé sete pequenos riachos. A sensação é maravilhosa: os pés, com feridas e bolhas e muitas dores, em contato com a água gelada e límpida. A vontade é não continuar e ficar de molho no riacho por várias horas. Mas anoitece muito cedo e tínhamos que chegar a casa de Don Pedro, o nosso anfitrião, antes das 18 horas.
5h da tarde. Fui a primeira a chegar a Xiprian, a aldeia onde iriamos pernoitar. Uma vez que a casa de Don Pedro só tinha uma casa de banho, queria tomar o tão desejado banho de água fria antes que anoitecesse, ou de outra forma iria congelar. Então, antes da maioria das pessoas ter recuperado o fôlego já estava eu a sentir-me como nova, com roupa quente e lavada.
O Don Pedro, por uma quantia que desconheço, dá-nos um teto para dormir, sumos de frutas, prepara-nos um delicioso jantar e faz-nos uma fogueira para nos aquecermos enquanto assamos marshmallows. É um senhor simpático e conversador, principalmente quando descobriu que eu e a Maria falávamos a sua língua (a Maria, porque eu mantenho-me fiel ao portonhol) e entendíamo-lo na perfeição, ao contrário da maioria do grupo. Tem duas filhas traquinas de quatro anos que só querem andar às cavalitas dos visitantes e entretiveram-se durante o serão a fazer perfeitas tranças à Maria e um bébé de um. Contou-me, com desgosto evidente nas feições queimadas do sol, que tinha perdido a mulher há menos de um ano e que com a ajuda dos pais tentava criar os filhos.
Não me recordo do nome da mãe do Don Pedro, mas quando me viu a falar com o filho veio perguntar-me de onde era. Expliquei-lhe que era de um país pequenino chamado Portugal, que ficava na Europa junto a Espanha. Ela interrompeu-me, porque sabia onde era o meu país, era o país que tinha uma terra chamada Fátima, onde a virgem Maria tinha aparecido a três pastorinhos. Estarreci. Se durante a minha estadia na América Central 90% dos locais não sabiam onde era Portugal e se inúmeros viajantes (principalmente americanos) tinham uma ignorância abismal sobre o nosso país, como é que uma senhora que não sabia ler, nem escrever, que não tinha uma televisão em casa e que aquecia a água numa fogueira para dar banho às netas sabia onde ficava Portugal e onde era Fátima? Desejou-me felicidades para a minha vida e eu desejei-lhe força, para continuar a criar os netos sem mãe.
As conversas à volta da fogueira duraram até às 9h da noite altura em que nos recolhemos, porque no dia seguinte, e também último, a nossa caminhada começava às 3h da manhã. Adormeci a pensar que, por incrível que possa parecer o dia de hoje não foi, de longe, tão difícil como o de ontem. A dificuldade foi a mesma, as horas também, mas a minha motivação foi diferente. Hoje senti que a mochila já fazia parte de mim, que sem ela faltava algo. Hoje o cheiro da floresta estava mais forte. O meu olhar estava mais nítido e o meu ouvido mais apurado. Hoje cedi ao trekking.
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